Se você está lendo este texto, há boas chances de que você seja –, sem dúvida em algum momento da sua vida você já foi importunado por algum cristão inconformado com a idéia de que você não crê nas baboseiras da religião deles. Nossos colegas religiosos (que encaram a existência de um ser superior como uma absoluta certeza) se sentem até confusos quando dizemos que não, não temos motivos pra crer em uma divindade suprema.
Alguns deles seguem as orientações bíblicas de não perder tempo te evangelizando (sim, a mesma bíblia que admoesta seus seguidores a divulgar as boas novas também alerta sobre a futilidade de dar “pérolas a porcos“, no sentido de que não se deve gastar energia pregando a pecadores. Vai entender…) e aprendem a conviver com você sem tentar constantemente te converter. Esses são “os gente boa”.
Mas tem os crentes chatos — permitam-me o momento de imparcialidade: tem ateu chato também — que enchem nossa paciência, exigindo que justifiquemos o motivo pra não acreditar em Deus, e defendendo sua crença vomitando sofismas que já foram desconstruídas séculos atrás.
Por isso escrevo este texto. Esta são as falácias mais comumente utilizadas por cristãos, e aqui está uma forma de responde-las que deixará seu amigo proselitista engasgando e e dizendo “ahnn… mas, hmmm… não é bem assim, tem que ver que… é, tipo…”
1) “Cristianismo não é religião”
Evangélicos tem uma estranha mania de alegar que sua crença “não é uma religião”. Aliás, católicos também fazem isso, mas são os protestantes que tornaram esse disparate parte do seu credo.
À primeira vista, parece estranha essa negação do status religioso do cristianismo. Religião define-se como (me ajudaí, wikipédia!):
“Um conjunto de crenças sobre as causas, natureza e finalidade da vida e do universo, especialmente quando considerada como a criação de um agente sobrenatural”
Não é preciso um PhD em Linguística pra compreender claramente que o termo “religião” se aplica adequadamente à crença de um ser sobrenatural que criou o mundo e enviou seu filho pra nos salvar do pecado. Entretanto, cristãos rejeitam essa definição. Sabe por que?
Jesus passou uma boa parte de seu tempo trollando os fariseus, que eram os mandachuvas religiosos da época — cabia a eles interpretar e aplicar a lei de Moisés. Os caras manjavam TUDOsobre a doutrina, mas esqueçeram que o papel principal dela era ligar o homem a Deus.
Então, os fariseus temiam que seu monopólio seria ameaçado pela figura carismática do Nazareno — que pregava mais amor ao próximo do que conhecimento acadêmico sobre os profetas –, e por isso viviam tentando enquadrar o cara em ofensas à lei judaica da época. E Jesus sempre dava uma resposta trollface e saia da situação incólume.
O que acontece é que a nova onda de interpretação evangélica prega que os fariseus simbolizam o apego aos símbolos e rituais religiosos, e não à substância da mensagem. Tentando se distanciar da figura dos algozes de Jesus, cristãos alegam que sua prática não é uma “religião”.
Mas é. Me desculpem, mas é. Se você crê em um ser invisível com super poderes que criou o mundo e que fala com você telepaticamente, você tem uma religião. Essa é a DEFINIÇÃO de religião.
2) “Ateísmo é uma religião!”
Essa aí é o outro lado do espectro falacioso. Ao mesmo tempo que recusam serem categorizados como religiosos, cristãos frequentemente acusam ateus de serem os verdadeiros religiosos.
Nem preciso de tantos caracteres pra explicar o disparate. Ateísmo não é uma religião porque esta basea-se numa crença. O que acontece no caso de um ateu é justamente o oposto disso — a faltade crença. Nós não “cremos” que Deus não existe; nós não cremos que Ele exista. Notou a tênua diferença semântica?
E não é que nós nos recusamos a acreditar em Deus. Não é um esforço consciente e ativo. É que, assim como o Papai Noel ou o Coelhinho da Páscoa, vemos a figura divina como uma evidente fabricação humana. Não há motivos que nos levem a crer — muito pelo contrário, aliás.
3) “Se eu creio em Deus e estou errado, não perdi nada. Se você não crê em Deus e está errado, tu se fodeu!”
À primeira vista, parece até fazer sentido — é um simples caso de “risk assessment“, ou seja, análise de risco: crer em Deus traz uma possível recompensa caso seja a escolha correta. Por outro lado, não crer traz uma terrível punição.A falácia é conhecida como “Aposta de Pascal”, é errada por vários motivos:
- Crença não é uma questão de escolha; é uma questão de ser convencido pela premissa da crença (você pode se fazer acreditar na Fada do Dente?);
- Sendo Deus onisciente, certamente ele saberia que você está acreditando nele com intenção puramente gananciosa;
- É um argumento baseado puramente no medo de uma punição, não tem nenhum mérito lógico real.
Apesar dessa falácia ter sido formulada (e refutada) séculos atrás, gente ignorante continua se valendo dela.
4) “Evolução é apenas uma teoria!”
Você certamente já ouviu esta. Acuado diante o total consenso da comunidade científica a respeito da evolução das espécies, o cristão desesperado lança “mas evolução não é um fato, é uma teoria”.
Esta confusão é um resultado do fato de que existem dois significados para a palavra “teoria” — o casual/informal, e o científico.
Coloquialmente, teoria é apenas uma opinião infundada sobre algum acontecimento — indistinguível de um mero “chute”. Cientificamente, por outro lado, uma teoria é uma série de explicações a respeito de algum fenômeno (assim como, por exemplo, a Teoria da Gravitação Universal). E essas explicações têm que fazer muito sentido.
Isso é porque na esfera científica, todos estão ativamente tentando DESPROVAR a sua teoria (esse princípio chama-se falseabilidade). O escrutínio da falseabilidade separa o joio do trigo, e deixa sobrando apenas as teorias que melhor explicam os fenômenos naturais que nos rodeiam.
(É curioso o quão similar a metodologia científica acaba sendo ao próprio processo de evolução por seleção natural, aliás. Só as teorias “mais aptas” sobrevivem.)
5) “Sem Deus não existe uma bússola moral!”
Esse argumento é errado em diversos níveis. Em primeiro lugar, ele essencialmente implica que apenas ateus cometem crimes — o que é um óbvio disparate. Em segundo lugar, ele insinua que o único motivo pelo qual pessoas mentalmente sãs não saem por aí estuprando crianças e matando velhinhos é o medo de ir pro inferno.
É incrível que há quem realmente acredite nisso. À luz desse raciocínio é possível concluir que ateus têm um senso moral mais disciplinado que cristãos — afinal, nós não matamos e estupramos porque temos o discernimento de que isto é errado, e não porque iremos para o inferno.
Se a única coisa te impedindo de tocar o terror é o medo do Papai do Céu (ao invés de um senso nato de moralidade que 99% dos seres humanos têm sem a necessidade da crença específica na sua divindade predileta), você não é nada melhor que os piores facínoras que já andaram neste planeta.
Não há necessidade de empregar a sua bíblia pra estabelecer padrões de moralidade, até porque a bíblia é um péssimo exemplo disso. Basta passear pelas seções “Cruelty“, “Intolerance” ou “Biblical Family Values” no excelente Skeptics Anotated Bible.
Falei que não mais escreveria sobre reliligião mais os crentes não deixam então ai está…
“There is a good religion that there are good people and bad people”